No filme “Midsommar, o mal não espera a noite”, Dani vive um grande drama pessoal. Perde de uma só vez pai, mãe e irmã de forma cruel e traumática. Diante da morte das figuras familiares, a personagem terá que lidar com o desamparo, não apenas constitutivo, mas, sobretudo, com os efeitos da não simbolização do luto da perda. Nas primeiras cenas, percebemos a inquietação da personagem enraizada à espera de e-mails, ligações ou algo que responda à não resposta da irmã. Parte da impossibilidade de fazer algo em determinado sentido para a completa impotência. Como lidamos com as impossibilidades? Cena interessante quando a personagem conversa com a amiga e diz não querer dividir com o namorado a preocupação com a irmã, pois acha que ele já não aguenta mais suas questões familiares e angústias. Ilusões do amor romântico de que não há desencontro? De fato, o namorado lhe dá pistas de que o namoro de quatro anos está a ruir.
Quando Dani relata por telefone suas angústias, ele se posiciona dizendo que tudo ficará bem e que aquilo era só mais uma repetição da irmã para chamar atenção. Chris, namorado de Dani, apresenta-se mais pra lá do que pra cá, alheio às questões da namorada, ausente das responsabilidades com o outro e consigo. Dani, diante da fatalidade imposta pelas contingências da vida, busca amparo na relação com Chris e com o grupo de amigos do namorado, que vão se mostrando desinteressados quanto ao sofrimento e atravessamento da personagem.
No decorrer das cenas, vamos percebendo a apatia instalada. Existe a promessa velada de que tudo ficará bem, não se fala sobre o luto, tampouco sobre a tristeza. Não há espaço para a palavra. Chris convida a namorada desconvidando-a e diz aos amigos que não convidou, quando, na verdade, convidou. A viagem está armada. Relações paralelas vão se desdobrando em impessoalidades e indiferenças. “Não precisa dizer muito né, o rolê que deu ruim.”
Como a diferença no grupo é desprezada já de início, vemos a cena em que Dani, Chris e o grupo precisam se unir para tomar o chá psicoativo, já nos mostrando que, supostamente, o bem de um é o bem de todos. “Todos precisam tomar juntos para curtirem o mesmo barato!”. Como lidamos com o que fica de fora, com as diferenças, com o resto?
Não tem espaço pra falar da falta, das diferenças. A personagem se engancha em recursos imaginários na tentativa de aplacar a angústia, atendendo a expectativas impostas pelo outro e também àquelas que ela acredita que o outro espera que ela cumpra para fazer parte do grupo, ou seja, identificando-se com os outros na tentativa de pertencer. Com esse cenário subjetivo de como as relações vão se mostrando no filme, é possível vislumbrar, assim como os campos verdes, vestimentas floridas e a alegria assustadora das pessoas no festival que há um empuxo à complementaridade ou, se preferirem, uma tentativa de completude.
A natureza e os humanos se completam à luz do dia, se misturam e se deformam à medida que os alucinógenos fazem efeito. Fazer Um, inclusive com a natureza! Nas primeiras alucinações, Dani paralisa, tem delírios de enraizamento, nos situando em sua alienação ao grupo e seus efeitos, principalmente de sua angústia frente ao desamparo. A personagem se depara com o luto da perda de sua família nas sucessivas cenas traumáticas que presencia, nas imaginações alucinógenas ou nos sonhos. Tudo se desdobra em um ambiente que beira o onírico representado pelos desenhos impressos, roupas, alimentos, bebidas, pelas músicas, pelas danças, ou pelas inocentes criancinhas correndo e brincando. No entanto tudo isso vai se revelando dialético. O belo se revela horror em plena luz do dia. Um horror silencioso. O que o filme nos causa? Como lidamos com o que nos afeta e como somos afetados? Trago essas indagações porque, quando assistimos às imagens, escutamos os diálogos ou nos deparamos com as contingências do filme, somos incluídos momentaneamente na narrativa. Medos, sintomas, frustrações, angústias podem surgir em resposta ao que nos afeta, ou seja: “O que te assombra?”. “Midsommar” nos arrebata e faz, nesse movimento, com que visitemos nosso próprio estranhamento.
O Eu é uma construção Imaginária, tem consistência e dá contorno do corpo e do que sou no mundo. Em outras palavras, o imaginário é formador do Eu, ou, nas palavras de Lacan, “Estamos partindo da ideia, com que, tal bordão, há muito tempo, os venho atazanando, de que não há meio de apreender o que quer que seja da dialética analítica se não assentarmos que o eu é uma construção imaginária” (Lacan 1954-55/ 1985, p. 329). Para entendermos melhor o que Lacan propõe podemos seguir a premissa de que, para se tornar sujeito, é necessário se deixar penetrar pelo outro, deixar que o outro nos tome como objeto. Operação lógica que o sujeito de linguagem atravessa alienando-se ao Campo do Outro para se tornar corpo afetado pela linguagem, erogeneizado pelo outro, ou seja, um corpo marcado pelo outro como território significante para além do fisiológico. (Primeiro tempo do Édipo).
Nessa operação, o sujeito se identifica com determinados significantes ofertados pelo outro e cria, a partir dessa oferta, imagens, ilusões, equívocos, engodos, suposições. Portanto podemos dizer que o sujeito é sujeito ao significante. A identificação ao significante é constitutiva, fundante e alienante. Esse Outro não é o outro meu semelhante. É o Outro como lugar do significante. Pode ser considerado meu semelhante entre outros, à medida que sou constituído não todo remetido às identificações, pois nem tudo cabe no significante, algo fica de fora como resto dessa operação.
Porém quando falamos em significante já estamos no campo simbólico, que é o campo da estrutura. As coordenadas simbólicas estão enraizadas no sujeito enquanto sentido significante. A série significante produz sentido. Quando colocamos significantes se articulando, temos como efeitos vários outros sentidos.
Simbólico é a estrutura.
Exemplo: Um pote de vidro com geleia.
Inconsciente estruturado como linguagem produz leis simbólicas, relações entre significantes, metáforas, metonímias. O simbólico é como um pote de vidro em que não importa qual será o sabor da geleia que vamos colocar dentro de sua estrutura.
A função da estrutura simbólica é comportar o que será preenchido. Podemos também pensar que o simbólico passa a ser o pano de fundo sobre o qual as instâncias imaginárias vão se reproduzindo (tela e projeções).
Na clínica, o campo simbólico ganha ênfase sobre o campo imaginário, pois o analista localiza nas narrativas, nas histórias, que o analisante conta as variações e movimentações do significante, destacando o significante do signo.
Dani, em sua trajetória em “Midsommar” demonstra que algo não vai bem. É por algo que não se resolve no campo simbólico que ela recorre aos recursos imaginários para tentar resolver o impasse entre o Eu e o sujeito do inconsciente. Dani paralisa, fica em curto-circuito, siderando na tentativa de descobrir o que o Outro deseja para que ela possa responder. A repetição é a tentativa fracassada de encontrar outros sentidos para dar conta da angústia.
O trabalho do analista é marcar a série significante, a forma como o sujeito se posiciona, como lida com o desejo, sobretudo nas repetições, no intuito de esvaziar o imaginário (eu ideal, Ideal do Eu) para que se encontre outras possibilidades e sentidos. Uma das propostas da psicanálise é “reformular” o Eu a partir do campo simbólico, dando tratamento ao significante. Dessa forma, daremos menos ênfase às imagens, ilusões e rivalizações que o Eu produz, furando certezas egoicas e possibilitando novas aberturas.
Por mais impactante que seja a experiência, os visitantes continuam se envolvendo com as pessoas e rituais da comunidade. “Midsommar” é um filme que traz o mistério em cena. Olhares, enigmas, insinuações criam aberturas para que os personagens ou os espectadores imaginem o que quiserem a partir de suas referências significantes. Representações de unidade que despertam ilusão de pertencimento? Sim, ficamos enfeitiçados com a fantasia de que é possível partilhar as experiências, os afetos. Um ideal de que se um sente prazer, todos sentem; se um sente dor, todos sentem; se um sente raiva, todos sentem…
Traz a mensagem de que se é desejado, de não estarmos sós, de que a existência é partilhada. “Eu quero você neste, naquele lugar, desse ou daquele jeito”, assim vai determinando o eu forte, desejado, inflado e, ao mesmo tempo, frágil, vulnerável por estar à mercê das decisões alienadas ao Campo do Outro. No seminário “A angústia”, Lacan nos orienta sobre a dimensão do Outro: “O Outro concerne a meu desejo à medida do que lhe falta e de que ele não sabe. É no nível do que lhe falta e do qual ele não sabe que sou implicado na maneira mais pregnante, porque, para mim, não há outro desvio para descobrir o que me falta como objeto de meu desejo. É por isso que, para mim, não só não há acesso a meu desejo como sequer há uma sustentação possível do meu desejo que tenha referência a um objeto qualquer, a não ser acoplando-o, atando-o a isso, o $, que expressa a dependência necessária do sujeito em relação ao Outro como tal” (Lacan 1962-1963/2005, p. 33).
Como se tivesse que encontrar um lar ou identificação qualquer, Dani se envolve com os preceitos da comunidade, mesmo nos apresentando que algo se mostra impossível de operar simbolicamente para apaziguar as idealizações imaginárias. Portanto, como conclui Lacan, o eu é Imaginário e, desdobrando mais um pouco, o Imaginário tem consistência de realidade.
Capturamo-nos pelo desejo do Outro e supomos estar decidindo quando, na verdade, não é uma decisão; é alienação, ou seja, decisão alienada na busca por um vínculo que faça complementaridade.
Midsommar, o mal não espera a noite No filme “Midsommar, o mal não espera a noite”,...
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